(mordidas bravas)














(por vezes mansas)



amedeu

avulsos



morder-vos
 
sem trincar
o cacao
ou as ginjas
no pão
sem nada
nos dentes
sacudindo
sem rede
e à chuva
os males
no meio
de enganos



morder
o mundo

 
todos os minutos
todas as horas
todas as semanas
em francês
e em inglês



morder
os sons

 
em 5 minutos
debaixo de água
conhecendo
lendo
sentindo
e comprando



morder
as imagens

 
pessoais
amadoras
profissionais
em movimento
brevemente
aqui



morder
as palavras

 
sentidas
no escuro
em busca
de tempo





e-m@il




















O meu nome é Amedeu. Não é um belo nome, bem sei, mas em Itália, de onde eu venho, até não soa mal. Não sei porque comecei por me apresentar com o meu nome. É o que toda a gente faz, mas o nome não diz nada de si. Se eu me chamasse Francesco ou Giuseppe era a mesma pessoa. Acho. Há quem tente associar o nome de alguém à sua personalidade. Eu admito que possa haver alguma relação, porque os pais que escolhem o nome do filho são os mesmos que o educam. Há pelo menos a questão estética da escolha.

Podíamos apresentarmo-nos pela nossa profissão: "Bom dia, sou carpinteiro." Sempre era mais esclarecedor. Tirando os casos das pessoas que não escolhem a sua profissão, em que aí talvez ficássemos a saber mais sobre os seus pais do que sobre elas próprias.

De qualquer maneira, começar pela profissão não me ajuda nada, porque eu ainda não tenho profissão. Nem sei bem o que quero fazer. Sei que gosto de pintar. E é só. Os meus irmãos escolheram cedo as suas profissões: o mais velho é advogado e o outro é engenheiro. Os dois foram excelentes alunos ao contrário de mim, que abandonei o liceu em Itália e vim para Paris um pouco à aventura...
(É verdade, tenho 16 anos - não sei se é um dado relevante.)
A minha irmã ficou a fazer companhia à mãe e à avó lá em casa; o pai passa muito tempo a tratar dos negócios de carvão na Sardenha. Quando o meu irmão começou a trabalhar lá com ele, eu algumas vezes também apanhava o barco. Ele enjoava um bocado, mas eu gostava do passeio, gostava de ver os tons de azul do Mediterrâneo mudarem com a ondulação do mar ou com a posição do Sol.

Quando cá cheguei, fiquei num hotel lá em baixo e inscrevi-me em algumas aulas de desenho. Passadas umas semanas decidi vir para a colina, A Colina. Ou outeiro, como eles lhe chamam aqui. Butte, em francês, que soa igual a but, objectivo, fim, termo, golo, alvo. A colina é tudo isso. E ainda refúgio, boémia, aldeia, íntima, secreta.


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E não há mais nada. Foi a única página que escrevi na minha tentativa de diário de juventude. Felizmente! Ridícula aquela sucessão de significados armada em literatura! A escrita não é de todo o meu forte, nunca foi, mas voltar a ler isto, agora que pouco mais posso fazer preso na cama, teve o mérito de me fazer lembrar deles. Foi nessa colina de Montmartre que, entre um cigarro e um copo, conheci o Pablo, o Henri, o Sebastien e tantos outros. Ou, como eu teria dito então, um pintor, um desenhador, um escritor e outros tantos. Hoje naturalmente sei que se um homem não é o seu nome, também não é a sua profissão. Nós, aqueles homens, entre um copo e um cigarro, falávamos da vida, das artes, da política e das mulheres, claro. As que pintávamos, desenhávamos, descrevíamos e as outras. As que amávamos. Quando não eram as mesmas.







Foste tu que nos apresentaste, Pablo. Na altura pensaste que era só mais uma. Mais uma estudante da Academia que um de nós iria conhecer melhor do que o outro. Certo, eu não era propriamente casto com as mulheres, mas a tua volatilidade ficava muito longe da minha vontade.

Tratei-te agora por Pablo, mas entre nós eras mais conhecido como "o génio". Eu que sou bastante comedido com os elogios, hesito claro neste qualificativo, mas reconheço-te algo característico de todos os génios: surpreendes-me com isto que adoro e aquilo que detesto, invertendo-se as opiniões ao trocarmos de observador. Por vezes divertes-te a recortar pedaços de papel colorido ou de jornais e a colá-los. É diferente, concedo, mas nem sempre gosto do resultado. Prefiro de longe quando toureias uma tela de pincel em riste. Vejo-te como um matador. Vais à frente, deixas um traço, uma razia, vens atrás, olhas, vês o resultado e de novo investes. Vejo-te em bicos de pés. Avançando e recuando em pequenos saltos, largos gestos e um olhar louco. Vejo-te essa madeixa inquieta, ironicamente parecida com a de um frustrado pintor alemão, que combateu discreto nesta guerra e que, como a discrição não lhe vai muito, talvez venha a causar uma outra. E tu talvez ainda venhas a pintar o que os seus aviões irão fazer nalguma cidade do teu país. A tua loucura, essa, não passa de ataques passageiros de mau-génio e é invariavelmente aliviada nas tuas mulheres. Que ainda assim te continuam, continuarão a amar. E imagina tu que daqui a um século, nas mesmas terras civilizadas em que nascemos, cenas destas continuarão a repetir-se e maridos pedirão o mesmo perdão que tu pedes e mulheres darão o mesmo perdão que te é dado, porque desta vez vai ser diferente, juro, e se te bato é porque te amo.

Vejo-te como um prisma que é capaz de separar esses momentos de dor e amor em cores, frios azuis nuns casos, quentes rosas noutros e são estes enfim que eu prefiro, sim.

Tu apresentaste-nos e eu soube. Cá dentro. Durante dias tentei desenhá-la de memória, sem sucesso. O riso dos seus olhos, o brilho dos seus lábios, para isso não havia pigmentos, não havia técnicas. A sedução deve vir antes da paixão, senão esta atrapalha aquela, e eu apressei-me então a voltar a encontrá-la e convidá-la para ir conhecer o atelier. O que dissemos, fizemos, sentimos ficou só para nós. Cá dentro.

(Ela pega no trapo ensopado de água morna que caiu ao chão. Torce-o para uma bacia. Encharca-o de novo em água fresca. Deixa pingar o excesso. E volta a deixá-lo na minha testa.)

Eu soube e sabia que ia ser diferente e tu achaste e achavas que tudo iria ser igual. Expliquei-te que para mim a fidelidade não é ao compromisso, é aos sentimentos. Não é ter uma relação com uma mulher que me faz desviar o olhar de outras; é amar uma mulher, mesmo que nem a conheça. Depois quiseste ser protector e falaste-me da cegueira, da fragilidade do coup de foudre e de novo estavas enganado, pois isso não é importante: podia bem ter sido algo amadurecido. Todos temos a fantasia do amor ao primeiro olhar, ao primeiro gesto, às primeiras palavras, mas ele não é menos genuíno se for crescendo ao longo do tempo. Não interessa o caminho. Ao ser assumido e consumado, é irrelevante se nos conhecemos ontem ou há dez anos. Nesse instante tudo é novo e tudo é maior que tudo. Todo o mundo ao longo do tempo já atravessou todos os sentimentos que nós ainda não conhecemos. Mas quando os sentimos, somos os primeiros.







Todas as noites olhavas as mesmas pás vermelhas do mesmo moinho, entravas no mesmo cabaret, subias para a mesma cadeira, junto à mesma mesa, ajeitavas o mesmo chapéu, afagavas a mesma barba, pedias o mesmo cognac, o mesmo absinto e desenhavas as bailarinas, que nem sempre eram as mesmas, mas que dali a alguns dias estariam em cartazes a anunciar os espectáculos desse mesmo cabaret. Os tipógrafos levavam as mãos à cabeça, que loucura é esta, que cores são estas impossíveis de imprimir. Ao que respondias: eu misturei tintas, o senhor só tem que misturar pigmentos.

Sempre me fascinou a tua maneira de pintar e desenhar. Não tanto nos tais cartazes encomendados, mas em telas mais pessoais. Às cenas de superficialidade dos cabarets, prefiro as cenas que nasciam da tua melancolia interior: a criação raramente é produto das horas felizes. Eram cenas de que fui copiando as cores, o traço do desenho, os contornos dos rostos. Mas ao imitar conscientemente as qualidades, acaba-se também por seguir os defeitos, faz o que eu digo, não faças o que eu faço. A tua torturada personalidade e os teus complexos transformaram-se na minha inveja. A indizível inveja entre amigos, Henri, que é a que rói mais fundo e mais corrompe, porque nunca assumida. Com o passar do tempo, fui estudando e aperfeiçoando-me e acabei por criar um estilo que penso ser meu, sendo que nunca inventamos nada de completamente novo, antes fazemos combinações originais do que já existe.

Era sentado naquela cadeira, àquela mesa, naquele cabaret, que te sentias mais igual aos outros. Os outros que assim não podiam ver a tua verdadeira estatura, o tamanho das tuas pernas. Era-te difícil tentar explicar a todas as pessoas que as tinhas partido em criança, uma de cada vez, e que uma deficiência de cálcio as impediu de crescer. Era-te difícil discutir olhos nos olhos quando estavas de pé. Era-te difícil tornares-te atraente para as mulheres. Era-te difícil não beber para esquecer. Era-te difícil depois não pagar a uma rapariga do passeio ou de um bordel. E foi-te enfim difícil admiti-lo, quando te apaixonaste por uma delas. E por causa dessa visão da vida tristemente distorcida, viste piedade onde havia amor. Por cobardia, por não acreditares que podias ser amado, ficaste a mastigar o que sentias e não o assumiste. E ela acabou por partir. Então tu abriste todas as torneiras de gás dos candeeiros de tua casa e não os acendeste. Depois arrependeste-te e, com a mesma lentidão, fechaste as mesmas torneiras e abriste as janelas. A dor, essa, continuava lá. E o insuportável, o insustentável, não é a dor, é a facilidade com que se lhe sobrevive, com que ela se torna leve: insustentável é a leveza do ser.

Apesar de já teres uma idade respeitável, vem a tua mãe e o louco do teu pai e levam-te de volta para Toulouse, onde o que tinha de acontecer aconteceu. Sim, eu sei que não foi pelas tuas mãos, foi doença súbita, mas a vontade conta muito nestas coisas.







Na altura nunca soubémos porque tinhas vindo de Londres para Paris. Não gostavas de falar disso, querias passar despercebido. Fechado no teu quarto, escrevias e escrevias e repetias que o objectivo da arte é revelar-se a si própria e ocultar o artista. Mas rapidamente a tua excentricidade foi mais forte e começou a falar-se em surdina de um tal Sebastien, escritor de cabelos compridos que enche o quarto, imagine-se, de girassóis e penas de pavão. A origem da inconfidência estava, claro, na porteira portuguesa do teu prédio. Não viveste o tempo suficiente para sofrer com a inconveniência.

Entre nós, muitas vezes falámos do acto criativo, seja da arte escrita, como era o teu caso, da arte plástica, como era o meu, ou mesmo da arte musical. Concordávamos na existência de duas fases necessárias à criação. Uma de vivências, de assimilação de experiências; e outra de isolamento, em que se processa, mais ou menos conscientemente, o vivido, para então o exprimir de algum modo. Os ritmos é que podem ser muito diferentes. Há escritores e compositores que se isolam durante meses para produzir uma obra e depois estão outro tanto tempo aparentemente sem fazer nada. Outros hão com ciclos mais curtos. Diários mesmo. Como os pintores que à noite se divertem com as mulheres que de dia pintam. Ou daqui a umas décadas, talvez inventem umas máquinas chamadas computadores e talvez inventem uma rede a ligá-los todos - e na tua língua vão chamá-la internet - e depois talvez inventem uns diários de bordo publicados nessa rede - e na tua língua vão chamá-los weblogs, ou blogs para ser mais curta a curta palavra. E haverá autores desses diários de bordo que têm a sua profissão convencional, o seu copo com os amigos, a sua ida ao cinema e depois, sós no silêncio da noite, abraçam uma caneta, um lápis, uma pena, ou simplesmente batem num teclado. Mas o que se mantém em todos os casos é a necessidade de beber experiências para depois as transmitir. Sem isso não sai nada. Memórias nostálgicas, se tanto.

Entre nós, não falávamos de mulheres. Nunca liguei muita importância ao facto enquanto foste vivo: há inúmeras razões para se estar sozinho, voluntariamente ou não. Depois da meningite te levar, vieram os rumores, os boatos. Foi mais uma vez a porteira portuguesa do teu prédio, que contou à porteira portuguesa do meu prédio, que contou à estudante francesa, que agora ajeita a almofada ao pintor italiano e que lhe contou os rumores, os boatos. Diziam que o teu verdadeiro nome não era Sebastien, era Oscar. Diziam que eras casado e pai de dois filhos. Diziam que tinhas passado dois anos preso por um caso de sodomia. E diziam muitas mais coisas de que me esqueci ou de que me quero esquecer. Percebi então com outro alcance o teu lema de que o melhor meio de resistir à tentação é ceder-lhe.

Que posso eu dizer agora? Que não me interessa qual era o teu verdadeiro nome. Que isso não diz nada do passado agora, quando muito do futuro quando foi escolhido. Como a história da Violeta que, daqui a uns anos, abrirá aqui na Rua Mouffetard uma loja de flores e cá vai ficar pelo menos quatro décadas, oferecendo a passantes frequentes e ocasionais o seu sorriso de florista. E para mais ela será ruiva, o que irá muito bem com as flores em geral, as violetas entre elas (já histórias diferentes poderão contar as Rosas e as Margaridas). Mas tu deixaste-nos o que escreveste e isso é independente do teu nome, afinal, qual é a importância de se chamar Sebastien, Oscar, ou mesmo Ernesto?







Está vento lá fora. Vejo-o por entre os ramos despidos das árvores de Janeiro. Está frio também, mas será menos do que aquele que eu sinto. Quando há pouco aqui estiveste, todo eu era as minhas mãos a tremerem. E o meu frio era saber que ias sair do quarto, que não te ia voltar a ver e querer guardar com força o teu rosto no meu olhar. O teu rosto e todos os teus rostos e todos os outros rostos que eu fixei. Porque o rosto tem o mistério de ser ao mesmo tempo o lugar mais exposto e mais íntimo do nosso corpo. É pela face que reconhecemos alguém e é na face que procuramos os indícios, certos ou errados, voluntários ou irreprimíveis, do que esse alguém pensa e sente. Somos icebergs de que as pontas visíveis são os nossos rostos.

Nesta manhã passou a vida inteira. Estive em Livorno com os meus pais e os meus irmãos. Sofri de uma pleuresia e de uma febre tifóide. Desisti da escola e aprendi a pintar. Fiz com a minha mãe uma viagem pelos museus de Florença e Roma. Fui a Inglaterra e vim para Paris. Esculpi enquanto pude e expus o que pintei. Tive uma exposição proibida por atentado ao pudor. Esta manhã bebi todos os dias a moeda que recebia por reles retratos de ocasião. Conheci o Pablo, o Henri e o Sebastien. Conheci também o Hector e queria falar das casas que ele faz mas já não tenho tempo. E conheci o Emmanuel, que faz banda desenhada muda assinando Caran d'Ache, que é igual a Karandach, que é "lápis" em russo, mas também já não tenho tempo de falar dele. E depois conheci-te a ti e fui pai. Nesta manhã passou a vida inteira. E é como se em toda ela estivéssemos nós os três.

O meu nome é Amedeu e estou sozinho neste quarto. Penso ainda umas linhas. Pergunto-me, por exemplo, se fui feliz. Tive uma vida curta, é certo, mas preenchida. Não é isto preferível a viver uma vida em branco, longa de penitências, para se ser feliz apenas enquanto velho, quando já pouco se pode aproveitar? A doença, as doenças acompanharam-me todos estes anos e quando não estava afogado em dores, estava imerso em álcool, mas posso-me responder que sim, que fui feliz. Uma felicidade triste. A felicidade é isso, a felicidade é um anjo com o rosto grave.

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Amedeo Modigliani morreu de tuberculose a 24 de Janeiro de 1920 com 35 anos de idade. No dia seguinte, a sua esposa grávida de 6 meses atirou-se do quinto andar onde moravam os seus pais.